quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

the dead lay in pools of maroon

patrícia ferreira - acrílico sobre canson - 2012


deambulação: a arte de perambular

A ideologia da racionalização do trabalho submeteu o tempo vivido à lei da produtividade. Depois de Henry Ford, andar a pé, atividade lenta e não remunerada, torna-se quase que fora da lei. Em sentido contrário ao da sociedade “progressista”, a deambulação (flânerie) baudelairiana, os diários de rota conceituais e as perambulações da land arte, entre outros gestos, elevam o andar a pé ao status de arte plena.

Hamish Fulton, “walking 1.022 miles” (década de 1960)

Hamish Fulton, por exemplo, após uma caminhada de 1.022 milhas, fez do andar a pé o único objeto de sua arte. Segundo o artista, sua arte é resultado de suas caminhadas individuais. Embora o artista seja o único a experimentar diretamente essa forma de arte, imagens, objetos recolhidos, fotografias e textos permitem que o público se relacione à experiência do artista.

Richard Long, “a line made by walking” (1967)

Em 1967, por sua vez, o artista inglês, Richard Long, caminha em linha reta, indo e voltando, sobre um campo gramado até deixar sua marca. A linha foi fotografada em preto e branco e tornou-se um marco na arte contemporânea, equilibrando-se nos limites entre a performance (ação) e a escultura (objeto).

Arthur Barrio, “4 dias e 4 noites” (1970)

Em 1970, o artista luso-brasileiro, Arthur Barrio, realiza uma experiência não programada, segundo ele, tendo apenas o cérebro como motor. Trata-se de “4 dias e 4 noites”, obra em que Barrio pretendeu levar o corpo a um nível máximo de exaustão que "desembocou", ainda, num patamar máximo de criação.

Barrio perambulava pelas ruas do Rio de Janeiro de modo a fazer suas percepções, apreendidas ao longo de suas caminhadas, condicionarem sua mente para o trabalho criativo, e o corpo para sua atuação como máquina que executa. Além do corpo e do cérebro, suporte de fundamentação do trabalho, o artista levava consigo apenas um caderno-livro para anotar suas idéias e experiências.


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Marinha (por Estela Mariana)

Não quero decifrar o mistério.
Não quero me lembrar das chaves.
Nem mesmo recortar sentidos do seu manto fluido
e me vestir de motivos bem cerzidos.
No murmúrio em que me elevo como onda
irrelevante, relevo sem coordenadas,
quero apenas tecer a linha
tênue
do meu dorso de espumas
com as forças que tenho. Gozo
de ondear antes de ser
outra voz
outra vez, murmúrio,
mistério e esquecimento,
mar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Parca poesia (por Estela Mariana)

Os poetas são vaidosos – quem não é?
Mas há poetas que se gastam inteiros
Nos campeonatos nacionais e mundiais
Dos gênios do lirismo. São peões
da grandeza e da eternidade.

Mas há poetas que sabem – amargamente –
De sua vaidade. Estes sabem-se reles
Homens, como toda a gente.
Sabem que os desejos e as frustrações
E as pequenas alegrias da vida
Têm a mesma grandeza e a mesma
Precariedade das almas que passam
Vaidosas – e apreensivas – pelas parcas
Linhas de vida dos seus corpos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Caio no nado

Caio, o que é que pensa quando aguarda um pouco só? Um poço limpo no escuro do íntimo? Uma voz que guia no silêncio da língua? Uma mão que acena sorrateira no abalo? O que te faz pensar, Caio, que isso que te move são guelras que não sabem de outro modo? O que te faz mover, Caio, se isso que te firma são paredes de lodo? Pensa um pouco e cede, Caio, desce, Caio, caia que a rede é uma espécie de medo que tem no zelo janelas com flores. Veja bem, Caio, que o casulo nem sempre é terreno que se pise isento de embora. Caio, que a ausência de tua pele na folha de teu passo na rima de teu afago no verso é como asfixia de texto anestesia de ponto, Caio, queda de anseio

de nada a nado

os nervos do nirvana ii (por franco átila)

a poesia é uma masturbação secreta
praticada por monges pervertidos
às portas da buceta das nuvens
que eles não conhecerão jamais

os poetas batem punheta no meio da rua
mendigos invisíveis pedindo esmola
com murmúrios inaudíveis   as palavras gozam
em silêncio   as sacolas passam e far

falham  as peruas e cocotas vão às compras
ao salão de beleza   homens de negócios
entram no cio com a última pickup da moda
oh my god as palavras urram na voz muda

do vate que esporra o poema no cu do mundo/
nada perturba o imperturbável gênio ilu
minado em seu nirvana pop em meio às calçadas
mijadas pelo vômito bêbado dos que perambulam

os buracos negros do asfalto
manto esburacado e inconsútil
que cobre a cidade de um sem fim
ao outro o corpo impuro e ávido

pelas carícias sacanas
desses mudos murmú
rios sujos de merda e porra
que brotam das bocas malditas

de seus ardentes amantes/
monges/mendigos punheteiros


Em versos longos:

A poesia é uma masturbação secreta praticada por monges pervertidos às portas da buceta das nuvens que eles não conhecerão jamais.
Os poetas batem punheta no meio da rua, mendigos invisíveis pedindo esmola com murmúrios inaudíveis.
As palavras gozam em silêncio.
As sacolas passam e farfalham.
As peruas e cocotas vão às compras, ao salão de beleza.
Homens de negócios entram no cio com a última pickup da moda.
“Oh my god”, as palavras urram na voz muda do vate que esporra o poema no cu do mundo.
Nada perturba o imperturbável gênio iluminado em seu nirvana pop em meio às calçadas mijadas pelo vômito bêbado dos que perambulam os buracos negros do asfalto, manto esburacado e inconsútil que cobre a cidade de um sem fim ao outro.
O corpo impuro e ávido pelas carícias sacanas desses mudos murmúrios sujos de merda e porra que brotam das bocas malditas de seus ardentes amantes/monges/mendigos punheteiros.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Visitas a Santiago

A Plágius tem o prazer de publicar mais um e-book de poesia: 





De boas visitas, boas prosas e boas rimas esse e-book tem em dobro. 
Clique no título ou na imagem para fazer download em arquivo pdf. O livro está disponível para leitura on-line no site no Santiago Régis, bem aqui.
A distribuição deste e-book é gratuita e sua reprodução total ou parcial é livre, exceto para fins comerciais. Boa leitura.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Menina

Ela gosta de papéis antigos, de beber com os amigos, de sonhar com os seus vícios, de desprezar os indícios, de livros de arte e História. Se provocada, ela pega e esfola. Ela acreditava-se eterna, agora faz meditação, yoga, e se diz pós-moderna. Ela tem planos de comprar uma bike elétrica, esquecer algumas metas, terminar o jardim, montar uma adega. Ela deixou de ser felina, hoje brinca de mulher, mas a alma é de menina. (D.Álvares)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

caio na fôrma pro som

caio me conta o passo que sabe a tormento caio me compra o traço do antelamento e banha de foz essa sede de fé. caio que quando esmorece eu quase me perco e enquanto caio procuro teu braço teu laço tua sombra me perde e nessa dança que é um silêncio e nessa ausência de fôrma pro som caio em mim que é um tu de volúpia e já teu ego me diz inconsciente que sou do esmalte o que vai embora. é o cheiro impetuoso da ira. é o beco incestuoso do mito. é a coroa criminosa da língua. tentando reinar nossos corpos terrenos. eu só quero pedir de joelhos e vícios não me quede sozinha nessa massa de sons.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

esfirra

Um poema de outubro de 2008, que permanece (perturbadoramente) atual:


bolsa despenca
desemprego aumenta
trabalho de merda
a vida não tem jeito
a sós a dois a mil
o mundo afunda
do pó à galáxia

pausa

pra comer esfirra
de carne com queijo
debaixo das árvores
sob a garoa
indiferente
véspera
de tempestade

cai a chuva
no mundo que cai

o mundo agora
é uma esfirra que cai
numa boca feliz

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

trouveur (por estela mariana)

sua voz
          sabe muito
mais que ele mesmo

seu corpo quase não
suporta o peso    o corpo não
foi feito para o vácuo
das palavras que desabam
em/de sua boca involuntária

dádiva
ou maldição?


Proseando:

Sua voz sabe muito mais que ele mesmo.
Seu corpo quase não suporta o peso,
o corpo não foi feito para o vácuo das palavras
que desabam na/de sua boca involuntária. 
Dádiva ou maldição?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

o salto (por estela mariana)

            um segundo
            fora do mar

                                         (vislumbre)

                  um mundo
                  fora  do ar

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

como vida de vida miúda

Como o Diabo
Como vida
Divida miúda
Como o dia 

Dia a dia dia do rim
Com medo de dívidas
Duvida em mim do que como
De Caio, Ubiratan
De como a quando
Como Zé Pelota e Jamesson e Wesley
Na nau marginal
A Flor de ana (das cartas quem dera a Frederico)
Pedindo desculpas se mal vi nas coisas que de patwork...
Me tonteia Fabrício prosseguir clemente.

Em comendo, como amor
Moendas emendas de versos de um tal João komós

A saudade nos faz simples!