quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ODE

A ti dedico
Uma poesia encomendada
Por minha mente e minha culpa
Em homenagem aos nossos tempos passados
Que se perduram e se perdurarão
Tempos de bosques e olhadas furtivas
Que aos poucos se consolidaram
E viram mãos dadas e cinema
Que se consolidaram ainda mais
E viram abraços noturnos e filmes na tv

Uma ode às promessas tão futuras
Que conseguimos realizar
Embora com custo e sem metade daquilo que queríamos
Uma ode às promessas que ainda vamos conquistar
Aos nossos planos malucos que mudam de cinco em cinco minutos
Aos nomes de filhas
Planos para o jardim
Chácara na cidade
Amor sem vontade
TPM
Aos amigos de sábado a noite
Que viraram de domingo a tarde ...

Uma ode à nossa coragem
A nossa vontade persistida e insistida
Embora por vezes quase desistida
Ao amor que dura
E se acalma
E me acalma...

Uma ode aos nossos espíritos inquietos
Que mesmo sem querer ou perceber
Viraram uma só alma
.
.

Cartas a Ana XXXIII

A saudade que sinto, não da sua presença de fato, que nunca me deu, que desconfio que nem você já a teve, mas da sua ausência à vista da fome insalubre dos meus olhos, a saudade que tenho é como a angústia que dorme nos móveis mais avessos do meu corpo, que se despe nos nichos que já não habito todos os dias, e que sem alívio respira. A sua falta imagino que deita com essa angústia e penso que transam atordoamentos enquanto me viro as noites esganam-se com ofensas baixas que rebentam todas na minha garganta, com os gritos batendo incontinentes as minhas cordas vocais já tontas de forma que esse som que sai não é meu, essa lágrima fácil não desaguou da minha richa, essa tristeza bruta seca leprosa não tem congruência com meu corpo. E às vezes essa coisa que não é minha, nem tua e nunca de ninguém dorme como se não perturbasse num ronco que mente esburacada de vacilos e por nada, pelo pó, pela esteira acorda não raro berrando com unhas virgens de poda, de pena, de par minha morada
minha morada, ana
anda arranhada de tijolos.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

bibelô

a velha caixa registradora
da loja de meu tio
não guarda mais o dinheiro do dia
muda e vazia num canto da sala
não serve para nada
que não seja o gosto curioso
e duvidoso pelas coisas antiquadas

a manivela solta da caixa
pede concerto
um minuto mecânico
um cheiro de graxa
um parafuso enroscado
um giro de manivela
um abrir de gaveta
um instante de graça
relâmpago de uma infância inteira
e para sempre
guardada
naquele corpo deserto
feito a oco e silêncio no agora
pleno de um canto
da sala desconcertada

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cartas a Ana XXXII

depois que você se foi, ana, tudo ficou muito diferente. eu já não tenho história, eu já não quero olhar pra trás e perder os olhos na gota, eu afasto o pretérito como um cômodo que já não quero limpar, que já não posso mudar, que já incendiei e apaguei e aluguei tantos motes, ana, por quê?, por onde?, que as janelas já nem me subestimam nas ameaças, que já nem se você voltasse. eu cuspo nos cantos que recolhem o seu cheiro, tapo todas as frestas que respiram sua voz, a minha casa está vazia e repleta de uma presença exageradamente minha e só. a minha casa asfixia o mundo lá fora. eu já não tenho paredes, telefones, imagens, não sei em que fogo atirei o teu ventre, que me entope o pomo, a pluma, o pó desse café amargo que me deixou o isento, a sua, o que resto, já nem a palavra. ana.

A bruta

Se este silêncio é seco

Se este olhar é frio

Se esta palavra é áspera

Se tudo isto demonstra monstruosidade

Perdoa

Eu sou mesmo bruta, mas não é maldade.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

aforismas arriscados (por franco átila)

O que destrói mais rapidamente do que trabalhar, pensar, sentir sem uma necessidade interna, sem uma escolha profundamente pessoal, sem prazer? Na condição de autômato do "dever"? Essa é precisamente a receita para a décandece, até para o idiotismo... F. Nietzsche  In O anticristo

o forte não precisa impor sua força: ela fulgura

o novo aristocrata não precisa de servos

o sacerdote (e o gerente/agente, este sacerdote moderno) é que deseja um rebanho servil

o cristianismo instaurou a servidão como princípio e virtude

o estado e o mercado no capitalismo são sistemas de servidão (sabedoria de de max weber: o capitalismo é cristão)

quem não é servo/demarcado ou gerente/sacerdote no capitalismo é proscrito, é ninguém

pela anarquia: na anarquia só há aristocratas e vagabundos

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cartas a Ana XXXI (em versos)

Ana, foi o teu perfil que me traçou
a antevisão da ausência, nítida.
Pelas linhas dos teus tecidos
circunscrevi o teu nu, trêmulo,
frio, pelos, dentes, seios, fome.
Só pelo teu perfil vesgo, Ana,
desenhei os nichos das suas verdades,
calquei-os nos teus poros e no movimento
falsete de tuas narinas – preso, como o medo,
sozinho.
Foi ali, e nunca mais depois,
que pude, que soube que não devia
interceptar o caminho do horizonte que os seus olhos rasgaram,
com sede, com receio, com uma desinência de espera
que eu não sei coar.
Ana,
eu devia ter recuado da janela, mas o ar que saía
suicídio dos teus lábios me fizeram pular,
inverter-me, praticar pesadelos.
E ali, exatamente no recanto iludido das tuas pálpebras,
ali, quando tua retina tombou tapando o restante do mundo,
como um quadril displicente na cadeira,
ali na escada de cílios da tua angústia,
eu perdi a referência do trajeto que me levaria
a qualquer parte que não o inferno.
Tive certeza do vão quando não
pude recuar. E agora, Ana,
como que amarrado na cor que sustenta o instante,
apregoo na parede dos meus becos essa tinta,
essa gosma,
esse inventário de imagens que sugam do teu olho.

COMENTÁRIOS CRÍTICOS:

Por Wilton Cardoso

Texto por Ana/Dheyne de Souza. As quebras em versos são por minha conta e risco.

O que gosto desta Ana, desta Dheyne em poemas/prosas (q prosa q nada!) de fôlego é a energia, a potência, quase mesmo que a violência do afeto feito palavras/lavas de lavar e larvar a alma: a potência do desespero e da não serenidade que encontra sua alegria neste ritmo largo e intenso, explosivo, nestas imagens cheias de margens inusitadas. Rastros violentos do afeto, e ainda assim tão líricos, tão delicados. Como você consegue Ana? Esta tua poesia coloca o leitor na posição daquele que te escreve, fazendo-o perder a referência do trajeto que o levaria a qualquer parte que não o inferno. Ah, mas que inferno, quem dera os infernos deste mundo fossem todos assim! Vida longa à Ana!

Por Fabiana Lula

Eu concordo: vida longa à Ana!

Encontrar textos como estes, feitos por Dheyne de Souza num blog na internet, é um verdadeiro alumbramento. A princípio a literatura escrita na rede parece ser bastante despretensiosa. Algo para ser digerido sem muito esforço e que não tem a intenção de ser grande Literatura, mas ler As cartas de Ana é uma experiência diferente. Nelas há bastante coisa a ser investigada, pois são poemas fortes e bem realizados. Podemos começar a leitura por duas características que aparecem com mais força, uma relacionada com a forma e outra com o conteúdo.

Quanto à forma, percebemos que a autora continua uma tradição que vem desde Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Ela inova na linguagem ao criar neologismos e ignorar conscientemente sintaxe e regência e, com isto, inventar um português com estilo próprio. Suas frases ou versos são escritos com absoluta liberdade, muitas vezes interrompidos abruptamente, mas não são cortes aleatórios. Dheyne tem absoluto domínio de causa e efeito, sabe como penetrar no idioma e arrancar dele significados que não conseguimos no dia-a-dia. Tudo isso em nome de um ritmo que não é de prosa a maior parte do tempo, pois suas cartas são textos poéticos, embora não em versos. E é com esta linguagem própria sua que nos conduz (nós, seus leitores) a uma atmosfera de alta tensão emocional.

A estranhíssima atividade de escrever cartas nos dias de hoje foi mais uma escolha interessante, já que ela amplia a idéia da ausência de Ana, a quem são destinadas. Aqui já estamos no plano do conteúdo, muito bem preparado pela escritora, uma vez que nos apresenta um dilema antitético: a inacreditável presença de um ser ausente. De início, parecem ser textos de despedida. O eu poético está rompendo o relacionamento com Ana. Mas não é só isso. Esse é só o estopim para que os textos passem a exprimir os temas sem os quais a arte não sobrevive: a dor, o ódio, o amor, a saudade, o desespero... Temas que, na verdade, são lugares comuns da literatura, mas que tornam a poesia de Dheyne potencialmente universal.

A forma de expressão e essa armadilha paradoxal da presença quase física de alguém que não está lá são o que mais chama atenção nestes poemas em forma de carta. As muitas e diferentes emoções suscitadas pela leitura de cada um deles são um refrigério para quem busca boa literatura na web. É uma prova apenas do que está por vir: uma Literatura independente do mercado editorial, e que pode ser que nunca passe por uma livraria real, mas que já está disponível virtualmente e de graça para quem quiser e souber ler.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

diálogos da meia noite iv

os artistas criam no aleatório. os artistas criam, inventam ao acaso. entre o fundo de acaso e um breve fulgurar de ordem os artistas instalam sua obra que oscila o sentido e ludibria os homens. a arte não representa nada, não imita nada, não estrutura nada, nem mesmo a si: é um relâmpago, uma descarga dos campos energéticos do desejo em cujo vórtice está o artista. (fa)

w – a qualidade literária é uma questão de gosto. ok, vamos por este caminho, então. como fica o novo? veja bem, o novo moderno é uma ruptura com o gosto antigo e a proposição de um outro gosto, um outro valor literário supostamente ainda não experimentado. o q quero saber é como o novo gosto, os novos valores literários acabam por conquistar o espaço do antigo gosto, acabam por conquistar o amor dos homens? como o novo gosto se impõe como o bom gosto?

zp – em primeiro lugar o próprio novo, a ruptura é um valor da modernidade. aliás, é o valor que a define (talvez ainda seja o valor fundamental de hoje, a diferença é que agora o novo, por ser cada vez mais buscado e experimentado, não tem mais o caráter de excepcionalidade e virou rotina: o novo não choca, não rompe e não tem o poder nem a ilusão de criar vivências alternativas, o q é um paradoxo, pois a ruptura é da natureza do novo. o novo sem (pelo menos a ilusão da) ruptura não é novo.) então, sendo, um valor, um gosto moderno, o novo é esperado e até exigido do artista. o gosto moderno está, digamos assim, predisposto ao novo.

fa – em segundo lugar, o novo moderno não opera, em literatura, desvinculado de estruturas relativamente estáveis no tempo. a continuidade de tais estruturas que são afetadas pelo novo, postas em crise pela novidade, garante que a novidade poética não seja absolutamente incomunicável (o novo absoluto é a incomunicabilidade).

w – que estruturas são estas?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sonho matinal

Saudade, para mim
É nunca conseguir passar
Das 5 primeiras fotos do seu álbum
Sem me sentir mal...
Amor, talvez um dia seja
Conseguir ser a foto final.


.

Cartas a Ana XXXI

Ana, foi o teu perfil que me traçou a antevisão da ausência, nítida. Pelas linhas dos teus tecidos circunscrevi o teu nu, trêmulo, frio, pelos, dentes, seios, fome. Só pelo teu perfil vesgo, Ana, desenhei os nichos das suas verdades, calquei-os nos teus poros e no movimento falsete de tuas narinas – preso, como o medo, sozinho. Foi ali, e nunca mais depois, que pude, que soube que não devia interceptar o caminho do horizonte que os seus olhos rasgaram, com sede, com receio, com uma desinência de espera que eu não sei coar. Ana, eu devia ter recuado da janela, mas o ar que saía suicídio dos teus lábios me fizeram pular, inverter-me, praticar pesadelos. E ali, exatamente no recanto iludido das tuas pálpebras, ali, quando tua retina tombou tapando o restante do mundo, como um quadril displicente na cadeira, ali na escada de cílios da tua angústia, eu perdi a referência do trajeto que me levaria a qualquer parte que não o inferno. Tive certeza do vão quando não pude recuar. E agora, Ana, como que amarrado na cor que sustenta o instante, apregoo na parede dos meus becos essa tinta, essa gosma, esse inventário de imagens que sugam do teu olho.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Diálogos com o umbigo

Quando Deus ou qualquer outro PilarAbsoluto morre para um homem, ou em um homem, como se sabe, passa-se ao Abismo, e o Abismo consiste da "consciência racional e afetiva" do fato da mortalidade.

O homem não nasce mortal, torna-se mortal, que Deus não morra para um homem, mesmo assim esse homem passará ao Abismo. De um modo ou de outro, Deus se rasga, e o furo na cúpula celeste, que o homem chama de estrelas, e que o homem já chamou de a luz de Deus a entrar no mundo, o furo na cúpula celeste ganha, mais cedo ou mais tarde, a qualidade de índice de um universo em que cada um está só com sua morte.

Se, para um homem, inexiste o dia em que Deus se rasga, é porque esse homem enlouqueceu, num sentido literal.

E não são poucos os homens que enlouquecem, literalmente e para além das pobres definições dos manuais de diagnóstico.

É claro que o espedaçamento de Deus também é enlouquecedor. Mas são loucuras distintas, a que se apóia no PilarAbsoluto e aquela que se apóia num misto de resignação e desespero diante do fato da mortalidade.

De todo modo se enlouquece, as opções são

ou enlouquecer por conta própria e inventar mundos, talvez compartilháveis, com seu misto de resignação e desespero

ou usar a loucura para dar consistência a um Deus monstruoso que nunca se rasga, ou seja, abraçar para sempre o mundo inventado para que os que não ousam enxergar a fragilidade, o esfarrapamento dos fundamentos do mundo, para que esses tenham um instrumento pronto para minimizar o sol que não cessa de ranger no Abismo.

Não é estritamente de Deus que falo quando uso a palavra Deus. Mas de qualquer, de qualquer coisa que, deificada, ocupe o lugar-Deus, instaurando-se como ponto final das indagações extremas, arquitetadas sobre a indagação extrema: a morte ― a qual metamorfoseamos em enigma, usando ou não Deus para isso (chamando-a, p. ex., de o enigma de Deus),

afinal, para podermos dialogar-jogar-xadrez com a morte, precisamos destituí-la de seu Absoluto, pois diante do Absoluto sequer levantamos os olhos ou a língua.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

mais

ir mais fundo
a cada mergulho
ir tão longe
a ponto de estar
mais perto do monstro
ninguém mais conhece
a face em ruínas
amanhece um outro
rosto que só
quer ir mais além

dois poemas de acabar


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Escrever sobre você

Escrever sobre você...



Tarefa difícil!



Pensei em por Marisa...


Mas, não queria ficar pra baixo!



Não que Marisa deixe pra baixo...



Mas, tudo que ela canta...



Bom...


Pus Elis, pra ficar mais Feliz.

[trocadilho besta!]



Peguei um copo de leite...




Pensando bem... Peguei o litro de leite!


E a negresco da vasilha.


Prendi meus cachos para cima...


Tirei o sapato apertado




Aaahhh...




Meus pés...
Chão frio.
Contato...



Relaxo. E sinto


A brisa suave brincando em minha nuca




Uhm... Acho que vou abrir a janela




Vento...



Brinca com o cacho



Que pouco a pouco se solta...





Negresco




Leite








Bossa nova





Chão...







Escrever sobre o que mesmo?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Perfume

Brota do interior
de uma ferida
Escorre gotejante
pelos poros puros
Um cheiro triste
silencioso olor
sabor de morte

Carniça

Cartas a Ana XXX

Ana, eu não sei o que tem acontecido comigo, que tenho feito tantas coisas turvas, não, tenho dito na vastidão dos meus pensamentos, batendo qual relógio nas paredes dos meus vãos, atrocidades cada vez mais míseras, tanto que nem sei quanto do que te digo mente. Ana, tenho tropeçado nas lamas mais grossas dos meus pesadelos guiados, afundando numa nuvem de chumbo que tem caído em meus cômodos cegos, não sei de onde vêm os medos com que eu respondo aos uivos e por que saio às ruas correndo, mas sempre me deparando com aquele beco molhado que fita os teus olhos no escuro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Recordação

Ruído Branco é um par de significantes, e os significantes deslizam, ar modulado por cordas, enviado ao corpo do outro, ouvidadentro, raptando sentimentos informes, construindo outros. Entre um e outro ouvido, o som atravessa o silêncio intracrânio e envia-se para os desfiladeiros do corpo, e o corpo retorna sinais ao silêncio intracrânio, e de algum modo, esse par de significantes, ruído branco, som em si mesmo sem sentido, transforma-se numa experiência de sentido.

Di(per)versões eletrônicas: yoda/marx


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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

diálogos da meia noite iii

A QUALIDADE LITERÁRIA

fa – qualidade em relação a quê?

w – como?

fa – quando vc diz qualidade em literatura, quais seus critérios?

w – digamos: inventividade, densidade, intensidade

fa – culto ao novo, culto ao profundo, culto ao sujeito

w – densidade não é sinônimo de profundidade e a intensidade não implica num sujeito

Epílogos I

Por fluido único e bem visível
que tenha apenas sua água:
um corpo inumano
onde não haja abismos.
Da cor do dia sob o qual se deita,
quero o corpo quase um vidro:
clara carne onde trespassa a luz.

De terra e de bile,
ao lume da tarde meu corpo verdeja.
Ao pé da janela, em sépia,
o corpo contempla a vida que lhe falta.
(Aos poucos, em dourar sua opacidade
a mesma tarde lhe apaga
ao coroar-me em verdor
o mesmo lume me queima.)

Nenhuma água ou luz subterrâneas:
que tudo o que fosse estivesse ao dia.
Por transparente que não desbotasse,
não verdejasse caos porque inorgânico:
um corpo à margem do tempo,
feito de morte e pra não morrer.



(É a tarde, amarelando frutas, revoando risos.
A tarde, cauterizando o corpo
que roto, em mágoa, deixa escorrer
a escassa luz que guarda.
A tarde. Em qu’eu morra.
Que só o que é morto
está à margem do tempo.)

Novo

O que escrevo aqui
É novo
E talvez um pouco vazio de sentidos e sentimentos

Querer algo de sol
Neste canto rouco de pássara
Ardente de desejos obscuros
Indefinida de gêneros
E voar
Até se esquecer
Daquele inexorável casulo escuro
Porem quente e confortável

Achar que às vezes me saiu uma mariposa em vez de borboleta

Sentir
Algo de beija flor velho
Casado de bater as asas
Bebendo restos de arco-íris orvalho


Bater
Asas
70 vezes por segundo
Pairar
No
Ar
Ou
                        Traz           Voar
                                 Para
                         

Ser uma beija flores

Indefinida de gêneros



Ousar!

E querer o que ouso...

Voar!

Ou apenas meu pouso...
.
.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Meditação transcendental

 parar de pensar

     é difícil

mas

como eu quereria

        parar de pensar

por um só instante

parar
        de
             pensar.

a quinta estação

sou possivelmente
uma coisa onde o tempo
deu defeito
f gullar


há um tempo a infância
ficou para trás
a juventude agora
fica para trás
chegará o tempo do adulto
ficar para trás
e o tempo em que tudo
ficará?
não, não haverá
tempo a ficar


sábado, 24 de outubro de 2009

resposta mambeme a Wilton


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Prelúdios Matinais II

Morto o azul, disse.
No corpo impregnado de azul.
Extinta a cadência do azul subordinando o corpo.
Extinta a cadência do azul, subordinada ao pulso do corpo.
Extinto, o azul.
Disse mesmo, certeza.
E não. Ainda há azul.
Qu’ind'á cheiro do azul de teus olhos
soando fundo e úmido em meu corpo,
o cheiro do azul de teus olhos se transfigurando lento em manhã,
a lenta libertação do azul de teus olhos tingindo manhãs.
Úmido, o azul. Secas as manhãs que dele evolam.
Secas, claras, deu bicho solto e lúcido no mundo,
manhã deu bicho manso e perecível, perecível mundo.
E azul, imperecido azul.
Certo que de azul ainda há teus olhos.
E as manhãs. Secas.
Amanhãs.

Cartas a Ana XXIX

Querida Ana, meu amor, escápula do meu desespero, espádua da minha ira, espada da minha insônia, estrada do meu alheio, escala dos meus pés nichos, cama do meu deserto, lama do meu instinto, ana do meu escalpelo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Di(per)versões eletrônicas: versos de segunda (2 versões)


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Infância


 

Cada coisa que faço

É caso certo

Não há distúrbio

É certo, é reto, jogral.


 

Paineiras no quintal da menina que conheci há muitos anos atrás.

É claro, nos anos vindouros foram outras meninas e depois moças e depois mulheres

e agora são meus sonhos que disturbam. Não havia distúrbios. Há agora.

Penso na padaria do José, que vendia rosca doce, na caderneta. Não vende mais.

Onde está?


 

Presta atenção na algazarra!


 

Tem meninos aos montes na prateleira da infância.

Eu era um deles. Não sou mais. Nem menos.

Prato branco esmaltado. Minha infância.

Abacate com açúcar no prato esmaltado.


 

Padre de igreja é careca e fala engraçado com fala engraçada.

Sentadinho na calçada alta esperando o pai ir vê-lo. Eu.

Era uma tristeza-alegria incomum ficar na deriva da dúvida se vinha ou não. As vezes ia, as vezes.

Violão em preto e branco.

Coragem para continuar na capacidade de ver perguntas onde só haveria perguntas.

Poema de google.

era uma vez uma menina que andava pelo nome de Lis

era uma moça já,

tinha em semblante o sorriso do mármore dos sonetos impecáveis e

se se pecava era pecado pequeno, nem conta.

Porque pecado guarda memória do imemorial, da não conta.

ao vestido de roda que anda com ela guarda a história da menina Lis que não é menina, que não é menina mais. e fosse..., mesmo não sendo, seria menina que não é mais.

hóspede e dona da casa que anda guardando e promovendo felicidade por onde anda e anda viu!?

e com esta pressa de viver fazendo as coisas e tantas coisas que se faz nesta vida, as vezes, mas só as vezes, esquece-se de como é terminar de fazer as outras coisas que ainda não foram feitas ou terminadas.

e se não foram, foram ao menos começadas que esta, às vezes, só às vezes, é mais importante que terminar.

continuar na escrita de palavras elas tendo o sentido que queremos ou não. substância.

O poema é conversa – mesmo no talk do google.

Lis Lemos: gostei muito dos poemas.

eu tenho tido mais vontade de escrever,

em compensação não tenho tido tempo.

gyannini: então não é compensação.

Lis Lemos: não, não sei o que é.

gyannini: é não compensação.

Lis Lemos: mas infelizmente, não tenho tido tempo de escrever

melhor assim?

gyannini: sim

melhor ou pior

deve ser pior

porque escrever é melhor

Lis Lemos: melhor a frase, não o sentido dela,

é ruim.


 

a prosa é poética quando é conversa.

trabalho

"mãos ao alto
todo mundo
mãozinhas pro alto
todo mundo dançando/
rezando/cantando comigo"

todo mundo engolfado
na alegria da morfina
enquanto a banca enche
a pança de ouro e joga
sossegada o seu golfe
nos idílicos campos das verdinhas verdejantes

ó exu tranca-banca
de longa barba branca
e patriarca
caia sobre nosso inimigo
a vossa ira judia
e alemã
que todas as portas e ruas
e fluxos se fechem
para eles nada
de mais valia e nada
de ópio para nós

salve o mistério tranca-banca!
laroiê!!!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

re arranjo azulado

 
 

a parede é azul

perfeito no ar

azul é gostoso

é meio e gasoso

eu como o mar

-

Tenho me sentido tão miúda!
Que resolvi escrever isso aqui...
Além do mais tenho saudades
Que sempre vão além do orgulho

Saudades
Saudades
Saudades
Saudades
Saudades
Saudades
Orgulho
Saudades
Saudades
Saudades...


Ainda não passou...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Di(per)versões eletrônicas: oração...

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Entre dois mundos

POESIA NA INTERNET: DESAFIO PARA A CRÍTICA

A nosso ver, o ciberespaço tornou-se não só um sítio de comunicação radical, mas também um local de apresentação, representação e criação artística de maneira independente. Neste espaço os produtores de cultura podem criar usando os novos recursos de linguagem que a tecnologia permite e divulgar sem o intermédio da indústria. Desfrutamos então de uma liberdade impensada séculos a atrás: finalmente a possibilidade de chegar ao público de maneira direta e quase em tempo real. Entre a criação e a divulgação não há mais tempo de espera. O produtor e o receptor estão navegando no mesmo espaço e de maneira concomitante, trocando experiências e alterando a arte com a sua possibilidade real de diálogo entre as partes. O produtor/autor/artista não espera pelo feedback do receptor/expectador/leitor porque essa resposta é imediata.

Dentro das possibilidades infinitas de produção artística que permeiam a rede de computadores escolhemos como objeto de reflexão a literatura e, mais especificamente, a poesia que se tem proliferado como rastilho de pólvora nesse mundo virtual. A poesia é uma maneira de radicalizar as possibilidades de a linguagem funcionar e alterar o mundo real. Tendo isso em vista, a radicalização da linguagem tende a ser muito maior no mundo virtual. Encontrar comunidades virtuais que tem como objetivo a leitura e análise de poetas consagrados não é difícil. Assim como é também muito fácil encontrar a poesia de dezenas de milhares de escritores canônicos em páginas e mais páginas oficiais ou não. Mas aqui nos interessa observar essa nova literatura de jovens autores que estão criando e publicando na internet. É impossível não observar a imensa quantidade de páginas pessoais, os chamados blogs, nos quais qualquer um pode escrever e publicar suas opiniões, pensamentos e produções literárias ou pseudo-literárias na rede. Entre estes blogs, contudo, encontramos a produção de novos poetas que apesar desse recurso incrível da interatividade correm o risco de cair para sempre no anonimato, perdidos no meio da “blogosfera”. Blogs de bons escritores se misturam a dezenas de milhares de blogs que na verdade não passam de diários virtuais.

canção imersa na tarde

o mundo
bilhões de galáxias no céu
bilhões de pessoas na terra
zilhões de estrelas e átomos
e esta chuva branca
derramada pelo céu escuro
na tarde cinza
o balde vermelho
uma área por lavar
uma casa
entre milhares da cidade
a vida feita da profusão
de cenas cotidianas
a vida feita de sonhos
e resignações da vigília
a vida
feito de infinitos
acasos

...

domingo, 18 de outubro de 2009

Metalinguagem (299!)

Às vezes
Me vem o poema
Pé ante pé
E me diz como quer ser escrito

Às vezes
Me vem o poema
Veloz como o infinito
E se joga no papel, já dito.

Às vezes
Me vem o poema
Triste como fardo envelhecido
E sai de mim vomitado, aflito..

Às vezes
Me vem um poema como este
Um tanto desbotado
Esquisito...
.

Cartas a Ana XXVIII

Hoje te vi de mãos dadas, meus olhos caíram aos passos, largos teus dedos, o ritmo da saia qual ondas batendo no outro, meu jeito perdeu o caminho, no rastro dos teus pés ladrilhos, que riam acompanhando a calçada, e os meus, qual dejeto no rio, um esgoto de faces meu rosto, tua boca calcando carinho, meus dentes rangendo a distância, ah, ana, tivesse uma rima pra estaca do meu corpo no mundo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Di(per)versões eletrônicas: muda

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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

poema-azul


quinta-feira, 15 de outubro de 2009

diálogos da meia noite ii

GUERRA E AMOR: O GOSTO COMO CONQUISTA

fa – um sistema literário é confortável pra vcs

w – em que sentido

fa – um sistema organiza os textos e os autores. diz, em primeiro lugar, o que é e o que não é literatura, i.e., organiza os limites do sistema. depois, o que é considerado literatura é organizado numa escala de qualidade que vai dos diluidores, passa pelos inventores e culmina nos mestres, semi-deuses do sistema

w – e os leitores?

fa – estes também são hierarquizados basicamente num campo que vai da ralé (leitor comum ou gado), passa pelos leitores mais eruditos e inteligentes (ou que têm algum poder de fogo sobre a massa, como editores, jornalistas, professores e artistas em geral) e culmina nos críticos e teóricos. aliás nesta última categoria há também uma hierarquia parecida com a dos escritores

Engenharia do amor ou Numa aula de física

Me atrai e me repulsa
Assim funciona meu amor
Nossos atritos, nossas culpas
Num bem mal me quer de dor

Nossos corpos diferentes
Condutos e isolante
Quando penso que me ama
Vejo seu olhar distante

Eletrizados por contato
Mas é neutra sua esfera
Só depois que descobri
És ligado ao fio terra

Como posso transformar
O teu lado negativo
Pra que não repulse o meu
E me torne seu cativo?

Entre nós não há contato
Talvez tente indução
Condutor e isolante
Esse nosso coração
.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sobre a figuração poética em "Alone"

O amor me é, tantas vezes, a imagem fétida que uiva unhas.  Quem simboliza as lembranças com gestos entende que só se escreve sobre o que não transborda. Sobre os gestos existem as entrelinhas. Sob as lembranças um pássaro: desolado. 

Quatro canções para Lara

Uma Descrição

Quase sem querer esbarrei,
parecia de cristal,
era pedra preciosa, presumi.
Tinha no rosto a marca do não acontecido,
do não lugar.
O caminho que se anda é por nada pedreira.
Maçã de branca de neve no outono brasileiro.
Foi veneno.
Inverno.

Um Pulo

Tive por vezes muitas razões e tão poucas vezes chance.
Não parece, ainda, que estou feliz, mas é um passo
daqueles onde existe o despenhadeiro a sua frente,
e um passo e pronto.

Um Salto

O Colibri de meus sonhos narra minha história em píus,
em cantigas inofensivas de pequenos voadores.
quero um dia voar,
bater asas,
saltar,
saltei sem rede e minha asa escureceu.

Outro Salto

Saltei de novo, outro dia.
Tive a surpresa de poder pelo menos duas vezes bater as asas,
sou pescador de vôos agora,
tenho minha rede de proteção,
mesmo que ela, ainda, não tenha tido
a paciência de voar junto.

Gyannini Jácomo

terça-feira, 13 de outubro de 2009

diálogos da meia noite

LITERATURA: A ILUSÃO DA GRANDEZA

fa – era uma ilusão

w – o que era ilusão?

fa – a objetividade em literatura

w – ora, nunca houve objetividade em literatura

fa – claro q houve, sempre houve, por milênios ouvi certezas sobre a grandeza de fulano e a mediocridade de beltrano. até no século xx: o que vc acha q é a hierarquia de ezra pound?

w – os inventores, mestres e diluidores?

fa – sim, isto é uma escala objetiva de qualidade, uma certeza sobre a qualidade literária, uma certeza de q se pode medir o grau de grandeza dos poetas ao longo das eras

Mimese de poema



Lição de poesia


-- Não dependa de pessoas.

Me diz a própria palavra

-- Não dependa de pessoas e aprenda a ser só.

E como um infanto-aprendiz

Me resigno a ouvir

Absorver


-- Tenha cuidado com o que dizes e, de preferência, não diga.

Continua sua lição...

-- Palavra lançada não pode voltar e é esta sua missão.

-- Limite-se a escrever e faça disto seu castelo.

E se retira, tão silenciosa quanto veio

Palavra silenciosa...

Me ponho a pensar...

Então a própria palavra quer me calar?
.
.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

cortinas :de poesia

da noite: crepitam os sonhos

 

quando

 

escuros são

os ossos: dos

 

desejos.

 

O encanto: das palavras:

 

Torna-se algo

antigo.

 

Outra é a lua: na pele

uma nova espera: novo sol.

 

Os olhos possuem cortinas

     :de poesia.

 

As lâminas escrevem vozes.

Na carne: em silêncio

 

a vida é como uma

cicatriz: silenciosa.

domingo, 11 de outubro de 2009

Lembranças de Caeiro

É talvez o último dia da minha vida
saudei o sol, mas se por acaso eu o vir
de novo pedirei para anoitecer:
mais nada.

sábado, 10 de outubro de 2009

de frias paisagens



Enquanto mantenho sombras com movimentos estáveis e trágicos
contornos: vedo os olhos de uma flor branca; Que se sabe indiferente

e amarga.

Quebro agora chuvas: com as asas encharcadas.
Pálidas gotas me fazem partir num vórtice.

A noite chegara. 

Sob a órbita de tremulas árvores procuro abrigo. 
Afogo meus olhos no céu: as nuvens escorrem.